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Mensagem do pároco › 20/07/2014

É para a liberdade que Cristo nos libertou

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Como sabemos, os passos da Lectio Divina, auxilia o fiel na compreensão texto bíblico. A finalidade é evitar a profanação das Escritura Sagradas, leituras fundamentalistas, ao mesmo tempo em que auxilia o leitor-fiel a encontrar a função comunicativa do texto sagrado.

A Lectio Divina, também evita um conhecimento puramente intelectual dos textos bíblicos, sua instrumentalização e a curiosidade banal, pois não é somente um método de estudo, mas também de oração. Por isso, quem deseja aproximar-se da Bíblia por meio da Lectio Divina, afasta a curiosidade, mas não renuncia ao estudo exegético e teológico[1], uma vez que a LectioDivina é um método de leitura e estudo das Sagradas Escrituras.

Lectio Divina não é uma leitura qualquer da Bíblia. É uma leitura orante, por isso, é motivada pela fé, nela o orante busca mais do que o conhecimento intelectual, busca o conhecimento de Cristo. Pode-se dizer que o orante deseja, por meio da Lectio Divina entrar em comunhão de amor com Cristo e com o seu corpo que é a Igreja. Como afirma São Paulo: “Assim tereis condições para compreender com todos os santos qual é a largura e o comprimento e a altura e a profundidade, e conhecer o amor de Cristo que excede a todo conhecimento, para que sejais plenificados com toda a plenitude de Deus” (Ef 3,18-19)[2].É nesse espírito, que a seguir, leremos o texto de Gálatas 5,1-6.

Devemos, antes de qualquer coisa, invocar o Espírito Santo, se quisermos verdadeiramente abrir o coração para que aconteça um diálogo com Deus. Pois é Ele, o Espirito Santo, que torna viva, atual e penetrante a Palavra de Deus.

Vinde, Espírito Santo,
enchei os corações dos vossos fiéis
e acendei neles o fogo do Vosso amor.
Enviai, Senhor, o Vosso Espírito,
e tudo será criado,
e renovareis a face da terra.

Contexto Literário

A princípio procuremos captar alguns elementos importantes do texto, a fim de reconhecer suas características. Trata-se de um exercício exigente e por isso mesmoimportante.

Gl 5, abre a seção ética da carta. Nessa seção São Paulo apresenta as consequências práticas relacionada a liberdade Cristã. Entrementes, o tema da liberdade é dominante em toda a carta. Vejamos como essa temática se desenvolve em todos a carta.

Em Gl 1.1, Paulo está livre de qualquer imposição humana: Paulo, apóstolo — não da parte dos homens nem por intermédio de um homem, mas por Jesus Cristo e Deus Pai que o ressuscitou dentre os mortos[3]. Para ele tudo é graça: “Pela graça de Deus sou o que sou” (1 Cor 15,10). Uma vez que a liberdade verdadeira não vem pelas obras da lei, mas vem de Cristo: “Aos quais não cedemos sequer um instante, por deferência, para que a verdade do evangelho fosse preservada para vós” (Gl 2, 11-14). Para Paulo, a verdade do evangelho não compactua com as práticas de alguns costumes judaicos, ao contrário as obras do lei quebram a liberdade em Cristo, porque a justiça acontece mediante a fé em Cristo, “ Nós somos judeus de nascimento e não pecadores da gentilidade; sabendo, entretanto, que o homem não se justifica pelas obras da Lei, mas pela fé em Jesus Cristo, nós também cremos em Cristo Jesus para sermos justificados pela fé em Cristo e não pelas obras da Lei, porque pelas obras da Lei ninguém será justificado” (Gl 2,16). Praticar as obras da lei é o mesmo que negar a liberdade em Cristo e invalidar a morte de Cristo na Cruz. “se é pela Lei que vem a justiça, então Cristo morreu em vão”(Gl 2,21).

Com a morte de Cristo somos libertadosdo poder dos príncipes do mundo, ou seja das obras da lei (Gl 4,3), dos cultos pagãos e dos falsos deuses (Gl 4,8-9). Agora a graça e a liberdade vêm de Cristo, e é n’Ele, por Ele e com Ele nos tornamos filhos de Deus. A liberdade produz uma nova relação filial com Deus, baseada no Espírito Santo: E porque sois filhos, enviou Deus aos nossos corações o Espírito do seu Filho, que clama: Abba, Pai! De modo que já não és escravo, mas filho. E se és filho, és também herdeiro, graças a Deus.(Gl 4,6). Em Cristo somos Livres para Libertar (4,31c. 5,1a).

O texto de Gl 5, 1-6

1É para a liberdade que Cristo nos libertou. Permanecei firmes, portanto, e não vos deixeis prender de novo ao jugo da escravidão. 2Atenção! Eu, Paulo, vos digo: se vos fizerdes circuncidar, Cristo de nada vos servirá. 3Declaro de novo a todo homem que se faz circuncidar: ele está obrigado a observar toda a Lei. 4Rompestes com Cristo, vós que buscais a justiça na Lei; caístes fora da graça. 5Nós, com efeito, aguardamos, no Espírito, a esperança da justiça que vem da fé. 6Pois, em Cristo Jesus, nem a circuncisão tem valor, nem a incircuncisão, mas a fé agindo pela caridade.

Procuremos, agora, a partir de uma leitura atenta, captar alguns elementos importantes de estrutura do texto proposto, a fim de reconhecer as características do texto em si.

  • Gl 5,1 abre um novo parágrafo, desenvolvendo a temática ética na carta, no entanto continua desenvolvendo o tema da liberdade.
  • O gênero literário predominante a partir do capítulo cinco é a exortação (exhortatio)[4]. Em gálatas 5,1-6 encontra-se duas exortações. Os vv. 2-4 que trazem argumentos negativos enquanto os vv. 5-6 trazem argumentos positivos.As duas exortações assinalam a importância do mandamento do v.1.
  • A unidade do texto é outro assunto importante. O texto grego Nestle Aland[5] da sétima edição considera o v.1 como um subparágrafo, mas a maioria das traduções o consideram um novo parágrafo. Entrementes, parece que existe um estreita conexão temática entre Gl 4, 21-31, a fábula de Sara e Agar, e Gl 5,1-6. Parece que v.1 abre um novo texto ao mesmo tempo que conclui o ensinamento anterior.
  • A unidade de Gl 5,1-6 está atestada pelos v.1 e pelos v. 6.  No v. 6 pode-se entender a expressão: “em Cristo Jesus” a luz da expressão: “É para a liberdade que Cristo nos libertou.” v.1a.A segunda evidencia pode ser observada no tema da escravidão no v,1c, e da circuncisão no v.6a. essa duas evidencias temáticas faz de Gl 5,1-6 uma unidade textual.

Meditar a Palavra

O objetivo da meditação é a compreensão do texto com o coração, mais do que com o intelecto. Buscar o que Deus quer me dizer com a meditação do texto, nela quem nos fala é o Espírito de Deus. Com esse espírito vamos meditar o texto de gálatas.

O primeiro passo nessa nova etapa é ir em busca do seu significado teológico. Para isso, meditaremos a partir da estrutura que apresentamos acima.

1 – V.1. “É para a liberdade que Cristo nos libertou. Permanecei firmes, portanto, e não vos deixeis prender de novo ao jugo da escravidão”.

A liberdade em Cristo é a primeira realidade teológica aqui assegurada pelo texto. A nova existência do cristão está fundada no evento Jesus Cristo, e acontece no batismo e não mais em outros rituais,como a circuncisão, o que na verdade seria servir outros poderes. O cristão serve somente ao Senhor Jesus Cristo que lhe dá liberdade, e por isso mesmo, a sua a natureza só é possível na liberdade por Ele conquistada, com isso fica claro a obrigatoriedade de não voltar atrás ao jogo da escravidão, que é ir buscar a justiça nas obras da lei.

A liberdade em Cristo ocupa o lugar principal no v.1, e é seguida de uma primeira exortação fundamental: “É preciso permanecer firme”. A segunda exortação aparece de forma negativa: “não vos deixeis prender de novo ao jugo da escravidão”.É decisivo para o cristão não perder a liberdade voltando à observância da lei judaica, mas moldar a liberdade recebida pela vivencia do amor. Ser livre é ser conduzido pelo Espírito, voltar a ser orientado pela lei é perversão da liberdade. É voltar ao jugo da escravidão, voltar a carregar um jugo insuportável, que escraviza e esmaga. Por fim, devemos ver a relação entre Gl 5,1 e Gl 3,13a onde lemos: Cristo nos remiu da maldição da Lei. A liberdade foi realizada por Cristo na cruz.

  1. Vv. 2-4. “Atenção! Eu, Paulo, vos digo: se vos fizerdes circuncidar, Cristo de nada vos servirá. Declaro de novo a todo homem que se faz circuncidar: ele está obrigado a observar toda a Lei. Rompestes com Cristo, vós que buscais a justiça na Lei; caístes fora da graça”

Esses versículos se entende a partir do tema da circuncisão:“se vos fizerdes circuncidar, Cristo de nada vos servirá”. Para Paulo ai está o que ele considera uma volta a obra da lei, pois uma vez circuncidado se torna obrigado a cumprir a lei. A circuncisão em si não é algo ruim, em Gênesis 17,12 e Levítico 12.3,vemos obrigatoriedade dos israelitas em circuncidar não somente seus filhos, mas também, seus empregados e os estrangeiros que estiverem em sua casa, como um gesto de acolhido na família para que assimeles pudessem participar da páscoa[6].

São Paulo, com certeza, não se opõem a circuncisão como um gesto de acolhida, mas como uma obrigação, como um meio de agradar a Deus e assim obter, por meio dela, a justificação. O problema que ele quer combater a mentalidade judaizante que estava crescendo na comunidade onde os cristãos, não circuncidados, aqueles de origem não judaica,eram levados a pensar, que a conexão com Abraão acontecia por meio da circuncisão e por ela passavam a participar da herança prometida a Israel, o povo eleito. Paulo deixa claro que quem se circuncidar na verdade está buscando a justificação pelo cumprimento da lei, e isso era o mesmo que romper com Cristo e ir contra o evangelho da graça[7].

Por fim, percebe-se um paralelo antagônico entre Lei e Graça. Por meio dessa oposição Paulo demostra que a graça e lei não podem coexistir no anúncio do Evangelho da liberdade. No momento em que um cristão se circuncidar cai dele a graça, ficando sujeito a maldição da lei (3,10). Segundo Paulo quem pensa dessa forma não crê em Cristo e tampouco na lei, mas, ao contrário, busca proveito nas duas coisas, e com isso invalida tanto a lei como a graça.

  1. 3.     Vv. 5-6. Nós, com efeito, aguardamos, no Espírito, a esperança da justiça que vem da fé. Pois, em Cristo Jesus, nem a circuncisão tem valor, nem a incircuncisão, mas a fé agindo pela caridade.

Buscar a justiça por meio da circuncisão é inútil, pois ela se obtém por meio da fé: “a esperança da justiça que vem da fé” por meio do Espírito.A vida do cristão estáasseverada pela presença do Espírito Santo que o fortalece em sua jornada cotidiana: “… e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus” (Cl 3,3) repare, que Paulo não escreveu que Deus está escondido em no cristão, mas que o cristão está escondido em Deus. “Logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo que vive em mim…” (Gl 2,20) Entrementes, o cristão deve se importar com a fé que obra pelo amor. Uma vez que o Espírito está acima da lei.

A palavra ilumina a nossa vida

O v.1 de Gálatas 5 coloca o orante diante de um dos temas mais importantes para o nosso mundo modernos: A liberdade e a libertação. Por isso concluímos nossa reflexão-oração apresentado alguns questionamentos para iluminar os passos seguintes da Lectio Divina: a oração e a contemplação. O intuito é que o orante os realize a partir de sua realidade eclesial e pessoal.

 O ser humano é verdadeiramente livre?
Quais a cadeias que o aprisionam hoje?
Quais as prisões que carrego dentro de mim?
O que dificulta a minha libertação?

 

Frei Werlen Lopes da Silva
Pároco


[1] SECONDIN, Bruno. Leitura Orante da Palavra. Lectio divina em comunidade e na paróquia. São Paulo: Paulinas, 2010. P. 21.

[2] Bíblia de Jerusalém (BJ).

[3] Ver também Gl 1,11-12. 15-25.

[4] Em toda a carta aos Gálatas está presente as secções de narrativas ( Narratio) em Gl 1,11-2, 1-14) e argumentativas (probatio) em Gl 3,1-4,1-11) e a exortação (exhortatio) em Gl 5.  Cf. FITZMYER. Josef. Carta a los Gálatas. In.BROOW. Raymond. Nuevo Comentário Bíblico San Jerónimo. Nuevo Testamento. Navarra: Verbo Divino. p.292.

[5]Nestle Aland sétima edição.

[6] Ver. Gênesis 17,12 e Levítico 12.3. Êxodo 12, 43-49: Prescrições sobre a Páscoa.

[7] Cf. Gl 2,15-21

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